Alimentar Cidades Sustentáveis Associação

Comunicado conjunto – ACSA x ZERO: revisão do Código dos Contratos Públicos (CCP)

Comunicado de imprensa

O apoio público às cadeias curtas agroalimentares continua sem “sair do papel”

Revisão do Código dos Contratos Públicos – em futura consulta – deve ser uma alavanca para o desenvolvimento de sistemas alimentares de proximidade

O Governo aprovou em Conselho de Ministros[1] o novo Código dos Contratos Públicos (CCP)[2], parte da ambição de reforma do Estado. Este processo de alteração acontece a par do início do processo de revisão das Diretivas Europeias que regem as compras públicas[3]. A proposta deverá seguir os trâmites habituais de audição de entidades competentes e consulta pública.

Para a Alimentar Cidades Sustentáveis Associação (ACSA) e a ZERO estamos perante uma janela de oportunidade ímpar para potenciar o papel das compras públicas na agricultura local, apostando numa simplificação inteligente capaz de concretizar objetivos sociais e ambientais, enquanto reforça a resiliência dos sistemas alimentares locais – algo muito urgente na conjuntura geopolítica atual.

Cadeias curtas agroalimentares: estratégicas e com planeamento, mas sem apoio efetivo

Uma dimensão em que a contratação pública pode ser muito consequente é no contributo para os sistemas alimentares de proximidade. O apoio a cadeias ou circuitos curtos está vertido nas medidas de planos e programas públicos, como a Agenda de Inovação para a Agricultura 2020-2030: Agenda Terra Futura (Resolução do Conselho de Ministros n.º 86/2020)[4] e o Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) 2030 (Resolução da Assembleia da República n.º 127/2025)[5], mas que continua sem uma implementação efetiva. Pese embora o Programa de Desenvolvimento Rural (PDR) 2020 tenha albergado uma medida para “Cadeias Curtas e Mercados Locais”, encontrou muitas dificuldades de execução e resultou quase exclusivamente para a construção e reabilitação de mercados municipais ou das freguesias, em detrimento de verdadeiros projetos de implementação de cadeias curtas e de promoção de uma agricultura de proximidade[6]. Incompreensivelmente, esta medida não teve continuidade no Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC).

O encurtamento das cadeias tem vários benefícios, desde logo o robustecimento do abastecimento de produtos frescos e preços tendencialmente mais justos aos produtores, com menos absorção relativa de valor por intermediários[7]. Cria também a possibilidade de maior previsibilidade para os pequenos e médios produtores, permitindo um planeamento a longo prazo com maior segurança. A proximidade da cadeia é também, por um lado, potenciadora da economia circular – por exemplo, utilização de águas residuais tratadas, prevenção de resíduos através de encaminhamento para alimentação animal e compostagem e recirculação de nutrientes advindos da fração orgânica dos resíduos sólidos urbanos – e por outro, facilita a disseminação de conhecimento e uma resposta mais rápida a pressões externas.

O Ministro Adjunto e para a Reforma do Estado, Gonçalo Saraiva Matias, anunciou a aprovação, em Conselhos de Ministros, de um Decreto-Lei que altera o CCP, sob o mote de combate à burocracia. Entre as alterações que estarão previstas está o aumento dos limiares para os contratos com regime mais simplificado (consulta prévia e ajuste direto) e um maior peso dos critérios de qualidade na avaliação das propostas. Estas mudanças têm o potencial de reforçar o papel dos contratos públicos no cumprimento de funções sociais, económicas e ambientais, nomeadamente no desenvolvimento de sistemas alimentares sustentáveis.

Uma revisão aberta e que crie entusiasmo e apoio para a implementação

Neste contexto, a Alimentar Cidades Sustentáveis Associação (ACSA) e a ZERO apelam ao Governo que:

  1. Abra o processo de revisão do CCP à participação pública, promovendo um amplo debate. tendo em conta que a alteração do normativo é apenas um passo, dependendo depois de mudanças na cultura administrativa, o envolvimento e debate públicos devem ser encarados como processos fundamentais para essa mudança;
  2. Fortaleça, na redação das alterações ao diploma, o papel das compras públicas na concretização de objetivos sociais e ambientais, designadamente através dos critérios de qualidade;
  3. Coloque a promoção de sistemas alimentares sustentáveis entre as prioridades para o novo CCP através da coerência com políticas existentes, nomeadamente tendo em conta o Estatuto da Agricultura Familiar[8] e a promoção de circuitos curtos agroalimentares prevista no Plano Nacional de Energia e Clima 2030 e na Agenda Terra Futura;
  4. Reconheça os serviços de hotelaria e restauração como merecedores de um regime especial, permitindo maior acesso das Pequenas e Médias Empresas aos contratos públicos e favorecendo as economias locais;
  5. Crie um grupo de trabalho multidisciplinar para o apoio aos sistemas alimentares locais através da contratação pública.

[1] Conselho de Ministros. (2026, 16 de abril). Comunicado do Conselho de Ministros de 16 de abril de 2026. XXV Governo Constitucional. https://portugal.gov.pt/pt/gc25/governo/comunicados-do-conselho-de-ministros/comunicado-do-conselho-de-ministros-de-16-de-abril-de-2026

[2] Decreto-Lei n.º 18/2008, redação atual

[3] Comissão Europeia. (2025, 3 de novembro). EU public procurement rules – revision. European Commission – Have your say. https://ec.europa.eu/info/law/better-regulation/have-your-say/initiatives/15492-EU-public-procurement-rules-revision_en

[4] Linha de ação 1.1. do Eixo I.1 Promoção da Dieta Mediterrânica e de uma alimentação equilibrada, diversificada e sustentável da Agenda de Inovação para a Agricultura 2020-2030: Agenda Terra Futura (Resolução do Conselho de Ministros n.º 86/2020) – Consumo: fomentar o acesso a alimentos seguros, diversificados, de época e de qualidade (e.g. restauração coletiva, mercados locais, circuitos curtos)

[5] Medida 6.9.2 do Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC) 2030 (Resolução da Assembleia da República n.º 127/2025) — Promover a implementação de cadeias curtas agroalimentares. Visa “replicar os bons exemplos de comercialização em circuitos agroalimentares curtos, que reduzem os consumos energéticos e as emissões poluentes devido às menores necessidades de acondicionamento, transporte e refrigeração dos produtos.”, com período de implementação entre 2024 e 2030

[6] Comunicado ZERO (2021): https://zero.ong/noticias/82-das-verbas-vao-para-obras-em-mercados-das-autarquias-e-verba-de-71-milhoes-de-euros-continua-por-atribuir/

[7] Gabinete de Planeamento e. Políticas (GPP). (2026, 13 de janeiro). Reunião Plenária da Plataforma para o Acompanhamento das Relações na Cadeia Alimentar. GPP – Produção e Mercados. https://www.gpp.pt/images/Producao_e_Mercados/OrgProducao_CadeiaAlimentar/PARCA/PPT__GPP_PARCA_20260113_final.pdf

[8] Decreto-Lei n.º 81/2021, redação atual

📺 https://www.publico.pt/2026/05/12/azul/noticia/revisao-contratos-publicos-apoiar-agricultura-local-pedem-ambientalistas-2174348